Quando a estomia é indicada? Entenda tudo e o que esperar

29 de julho de 2026

Por Dr. Alexandre Bertoncini, coloproctologista e cirurgião do aparelho digestivo, CRM-SP 129589, RQE 37039, RQE 34120.


Introdução


É comum que pacientes e familiares associem a
estomia a limitações permanentes, mudanças radicais na rotina ou perda de qualidade de vida. No entanto, a realidade é mais ampla e, muitas vezes, diferente do que se imagina. A estomia é um recurso cirúrgico que pode salvar vidas, prevenir complicações graves e permitir a recuperação adequada do organismo em diversas situações. Além disso, na maior parte das vezes as estomias são reversíveis e são utilizadas como uma etapa transitória no tratamento do paciente.


Neste artigo, você entenderá quando a estomia é indicada, quais são os principais tipos, como é a adaptação após a cirurgia e o que esperar ao longo do tratamento.
Continue a leitura para esclarecer as principais dúvidas sobre o tema.


O que é uma estomia?


A estomia é um procedimento cirúrgico que cria uma abertura entre um órgão interno e a superfície do corpo. Essa abertura permite a
eliminação de fezes, urina ou outras secreções quando a passagem natural não pode ser utilizada de forma segura ou adequada, ou utilizada também para a alimentação dos pacientes que por algum motivo não podem mais se alimentar naturalmente pela boca (gastrostomias e jejunostomias).


Embora muitas pessoas associem a estomia a uma condição definitiva, isso nem sempre acontece. Em diversas situações, ela faz parte de uma estratégia temporária para
proteger o organismo e favorecer a recuperação após uma cirurgia ou durante o tratamento de determinadas doenças.


Qual é o objetivo da estomia?


A indicação da estomia tem como principal objetivo preservar a saúde do paciente e permitir que o organismo funcione de forma segura diante de determinadas condições clínicas, geralmente contornando-se um problema ou complicação pontual.


Dependendo do caso, a estomia pode ser necessária para:


  • Proteger uma área recém-operada
  • Permitir a cicatrização adequada do intestino
  • Reduzir o risco de infecções graves
  • Tratar doenças complexas
  • Desviar de uma obstrução mais adiante
  • Criar uma via alternativa quando o caminho natural não existe mais
  • Restabelecer funções comprometidas


Em muitos cenários, a estomia representa uma etapa importante do tratamento e contribui diretamente para uma recuperação mais segura. Em outros casos, infelizmente, pode ser uma nova realidade com a qual o paciente precisará se habituar, em nome de uma recuperação plena ou mais definitiva de uma doença mais grave ou mutilante.


Quais são os principais tipos de estomia?


Existem diferentes tipos de estomia, e cada um deles é indicado conforme a doença e a região do organismo que precisa ser desviada.


Colostomia


A colostomia é realizada utilizando uma parte do intestino grosso.


Nesse procedimento, uma
porção do cólon é exteriorizada através da parede abdominal para permitir a eliminação das fezes.


A consistência das fezes costuma ser mais próxima do habitual, variando de acordo com o segmento do intestino utilizado. Quanto mais próximo do início do intestino grosso, mais líquidas e frequentes as evacuações serão, ao passo que quanto mais próximo do final do intestino grosso, serão mais parecidos com fezes normais. A colostomia pode ser temporária ou definitiva, dependendo da condição que levou à cirurgia e pode ser terminal (quando o intestino “termina” na pele) ou em alça, quando apenas uma parte do intestino é conectada à pele, uma estratégia que costuma facilitar a sua reversão no futuro.


Cada estomia tem uma indicação precisa a depender do motivo pelo qual ela foi necessária. Abaixo, nas ilustrações, temos um exemplo de uma colostomia terminal.



Ileostomia


A ileostomia é confeccionada a partir do final intestino delgado, mais especificamente da porção chamada íleo, que é a última parte do intestino delgado antes de se conectar ao intestino grosso.


Como o conteúdo intestinal ainda não passou pelo intestino grosso, as eliminações costumam ser
mais líquidas ou pastosas e mais frequentes.


Por esse motivo, pacientes com ileostomia geralmente precisam de maior atenção à hidratação e ao equilíbrio nutricional, além de cuidados específicos com a pele ao redor da estomia para proteger da ação das enzimas digestivas ainda presentes nessas eliminações e que podem agredir essa pele.


Também podem ser classificadas como terminal ou em alça, e definitivas ou temporárias, assim como as colostomias. Geralmente utiliza-se a ileostomia para proteger de forma transitória uma região operada do intestino grosso, especialmente o reto, após uma cirurgia mais complexa, a fim de permitir a cicatrização com menores riscos de infeção da cirurgia inicial.


Urostomia


A urostomia é indicada quando a urina não pode mais seguir seu caminho habitual através da bexiga e da uretra.


Nesse cenário, cria-se uma nova via para a eliminação urinária por meio da
parede abdominal diretamente ou conectada a uma parte separada do intestino apenas para essa derivação.


É um procedimento que pode ser necessário em determinadas doenças urológicas, tumores ou alterações estruturais do trato urinário, mas também quando partes do trato urinário estão acometidas por outras doenças da pelve como cânceres intestinais ou ginecológicos, por exemplo.


Gastrostomia e Jejunostomia


A gastrostomia e jejunostomia são geralmente utilizadas como uma via de alimentação para pacientes que por algum motivo não conseguem mais se alimentar pela boca, ou por questões neurológicas como sequelas de um AVC ou progressão de demências, por exemplo, ou como consequência de tumores da região oral, pescoço, esôfago ou estômago.


No caso das gastrostomias, pode-se utilizar alimentos normais batidos em consistência líquida ou pastosa rala, para a alimentação, enquanto que no caso das jejunostomias, por ser já uma parte do intestino delgado e o alimento não passar pelo estômago, é necessário o uso de alimentos especialmente criados com esse objetivo.


Ambas também podem ser utilizadas para descompressão em casos de obstruções mais adiante no tubo digestivo, pelas mais diversas causas, mas, nessas situações, geralmente o tratamento é paliativo para melhora da qualidade de vida sem necessidade de longos períodos de permanência com sondas através do nariz.



Quando a estomia é indicada?


A necessidade de uma estomia depende de diversos fatores, incluindo o diagnóstico, a gravidade da doença, a localização do problema e os objetivos do tratamento.


Câncer colorretal


Uma das situações mais comuns envolve o tratamento do câncer de reto e do câncer cólonl (ambos chamados de câncer colorretal).


Dependendo da localização do tumor e do tipo de cirurgia necessária, a estomia pode ser utilizada para
proteger a reconstrução intestinal durante a cicatrização ou, em alguns casos, tornar-se definitiva quando essa reconstrução não é mais possível.


A decisão sempre leva em consideração aspectos como segurança cirúrgica, preservação da função intestinal e controle da doença.


Doenças inflamatórias intestinais


Pacientes com doença de Crohn ou retocolite ulcerativa podem necessitar de estomia em situações específicas.


Isso costuma ocorrer quando existem complicações importantes, inflamação extensa, perfurações, obstruções ou necessidade de retirada de segmentos do intestino.


Embora nem todos os pacientes com essas doenças precisem de estomia, ela pode representar uma ferramenta importante em momentos mais complexos da evolução da doença.


Diverticulite complicada


Nos casos graves de diverticulite, principalmente quando ocorre
perfuração intestinal ou infecção abdominal extensa, a estomia pode ser utilizada para proteger o intestino e reduzir o risco de complicações ou, em casos mais graves, permitir uma cirurgia mais abreviada removendo o foco de infecção e permitindo que o paciente inicie mais rapidamente os cuidados pós-operatórios em UTI.


Nessas situações, muitas vezes o procedimento é temporário e faz parte de uma estratégia para permitir uma recuperação mais segura.


Traumas e emergências cirúrgicas


Acidentes, lesões intestinais, perfurações e outras emergências abdominais também podem exigir a realização de uma estomia.


Nesses casos, o objetivo costuma ser controlar a situação aguda, proteger o organismo e criar condições adequadas para futuras reconstruções, quando possível.


A estomia é sempre permanente?


Não. Essa é uma das dúvidas mais frequentes entre pacientes e familiares.


Muitas pessoas recebem a indicação da cirurgia acreditando que viverão permanentemente com a estomia, mas isso depende da condição clínica que gerou a necessidade da cirurgia e da estomia e do planejamento global do tratamento.


Estomia temporária


A estomia temporária é utilizada quando existe a
possibilidade de reconstrução futura.


Ela costuma ser indicada para:


  • Proteger suturas intestinais
  • Reduzir o risco de complicações pós-operatórias
  • Permitir a recuperação de áreas inflamadas


Após a recuperação adequada, pode ser realizada uma nova cirurgia para restabelecer o trânsito intestinal ou urinário.


Estomia definitiva


A estomia definitiva é indicada quando não existe uma forma segura de reconstruir a passagem natural.


Isso pode acontecer em algumas situações específicas, como determinados tumores, lesões extensas ou doenças que comprometem permanentemente a função do órgão.


Mesmo nesses casos, muitas pessoas conseguem retomar uma rotina ativa e manter boa qualidade de vida, muitas vezes muito próxima à sua vida anterior à cirurgia.


Como é a adaptação após a cirurgia?


O período inicial costuma ser marcado por dúvidas e inseguranças, o que é absolutamente esperado.


A adaptação acontece de forma gradual e normalmente é acompanhada por profissionais especializados, especialmente enfermeiros estomaterapêutas, que agem na educação e treinamento dos pacientes, familiares e cuidadores.


Nos primeiros dias, o paciente aprende uma série de cuidados importantes, incluindo:


  • Troca da bolsa coletora
  • Higienização da região
  • Reconhecimento de sinais de alerta
  • Ajustes alimentares
  • Cuidados com a pele ao redor da estomia


Com o passar do tempo, essas atividades passam a fazer parte da rotina de maneira cada vez mais natural.


Retorno às atividades


Após a recuperação, muitas pessoas conseguem retomar atividades que faziam antes da cirurgia, incluindo trabalho, vida social, relacionamentos afetivos e sexuais, exercícios físicos, viagens e para o convívio familiar.


O tempo de adaptação varia de acordo com cada paciente, mas a tendência é que a confiança aumente progressivamente.


Quais cuidados são necessários com a estomia?


Os cuidados dependem do tipo de estomia e das características individuais de cada paciente, mas algumas recomendações são universais.


Entre os principais cuidados estão:


  • Manter a pele ao redor da estomia limpa e seca
  • Utilizar dispositivos adequados
  • Realizar trocas conforme orientação profissional
  • Observar alterações no funcionamento da estomia
  • Comparecer às consultas de acompanhamento


A saúde da pele ao redor da estomia merece atenção especial, pois irritações e lesões podem gerar desconforto e dificultar a adaptação.


Como a alimentação pode influenciar?


A alimentação desempenha um papel importante na adaptação e no bem-estar após a cirurgia.


É importante mastigar bem os alimentos, introduzir novos alimentos gradualmente, manter boa hidratação ao longo do dia. Além disso, observar a tolerância individual aos alimentos e evitar mudanças bruscas na alimentação.


Cada organismo reage de forma diferente. Por isso, o acompanhamento nutricional pode ser uma ferramenta importante para garantir uma adaptação mais tranquila.


Em pacientes com ileostomia, a atenção à hidratação costuma ser ainda mais relevante devido à maior perda de líquidos.


Quais sinais merecem atenção após a cirurgia?


Embora a maioria dos pacientes evolua bem, alguns sintomas exigem avaliação médica.


Procure orientação
se houver:


  1. Dor intensa ou persistente
  2. Sangramento importante
  3. Mudanças significativas na cor da estomia
  4. Diminuição importante da eliminação de fezes ou urina
  5. Obstruções ou dificuldades em injetar a dieta em caso de gastrostomia ou jejunostomia
  6. Irritação intensa da pele ao redor da estomia
  7. Inchaço excessivo da região


O acompanhamento regular permite identificar precocemente possíveis intercorrências e garantir maior segurança durante todo o processo de recuperação.


Restou alguma dúvida?



  • O que é uma estomia?

    A estomia é uma abertura criada cirurgicamente para permitir a eliminação de fezes, urina ou outras secreções quando a via natural não pode ser utilizada de forma segura ou adequada, ou para permitir a alimentação de um paciente impossibilitado de se alimentar normalmente, ou descompressão do tubo digestivo superior


  • A cirurgia para estomia é sempre realizada em casos de câncer?

    Não. Embora seja comum em alguns tratamentos oncológicos, a estomia também pode ser necessária em doenças inflamatórias intestinais, infecções graves, traumas e emergências cirúrgicas.


  • Qual é a diferença entre colostomia e ileostomia?

    A colostomia é feita a partir do intestino grosso, enquanto a ileostomia utiliza a parte final do intestino delgado. Por isso, as características das eliminações e alguns cuidados podem variar entre elas.


  • A estomia é sempre permanente?

    Não. Muitas estomias são temporárias e são utilizadas para proteger áreas operadas ou permitir a cicatrização. Em alguns casos, uma nova cirurgia pode restabelecer o funcionamento normal do intestino ou do sistema urinário.


  • Uma estomia temporária pode permanecer por mais tempo do que o previsto?

    Pode. O tempo de permanência depende da evolução da recuperação, da cicatrização e das condições clínicas do paciente. Em alguns casos, o planejamento inicial pode precisar ser ajustado.


  • Como é a adaptação nos primeiros dias após a cirurgia?

    Nos primeiros dias, o paciente aprende a cuidar da estomia, realizar a troca da bolsa coletora, cuidar da pele e adaptar alguns hábitos da rotina. O suporte da equipe especializada é fundamental nesse período.


  • O organismo continua funcionando normalmente após uma estomia?

    Sim. A digestão e diversas funções do organismo continuam acontecendo normalmente. O que muda é apenas a forma como fezes ou urina passam a ser eliminadas. A diferença se dá apenas no caso de uma jejunostomia versus uma gastrostomia em relação ao tipo de alimento que pode ser oferecido através delas.


  • A alimentação muda após uma estomia?

    Pode haver ajustes temporários ou permanentes dependendo do tipo de estomia. Geralmente são orientados cuidados com hidratação, mastigação adequada e observação da tolerância individual aos alimentos.


  • Quem tem estomia pode levar uma vida normal?

    Sim. Com orientação adequada e adaptação progressiva, a maioria pessoas conseguem trabalhar, viajar, praticar atividades físicas e manter uma rotina ativa e relações sexuais de forma normal.


  • A estomia interfere na prática de atividades físicas?

    Após a recuperação adequada, muitas pessoas conseguem voltar a se exercitar. Algumas adaptações podem ser necessárias, mas a atividade física costuma fazer parte da rotina da maioria dos pacientes estomizados que assim o desejam.


  • É possível viajar com uma estomia?

    Sim. Com planejamento adequado e os materiais necessários, pessoas com estomia podem viajar de carro, avião e participar de diversas atividades sociais sem limitações significativas.


  • Quais sinais exigem atenção após a cirurgia?

    Dor intensa, sangramento importante, alterações na cor da estomia, redução significativa da eliminação de fezes ou urina e irritação intensa da pele devem ser avaliados por um profissional de saúde.



Coloproctologista e Cirurgião do Aparelho Digestivo em SP | Dr. Alexandre Bertoncini


A estomia é um recurso cirúrgico importante e, muitas vezes, fundamental para preservar a saúde, tratar doenças complexas e evitar complicações graves. Embora o diagnóstico e a indicação possam gerar insegurança inicialmente, compreender o objetivo do procedimento e conhecer as possibilidades de adaptação ajuda a enfrentar esse momento com mais tranquilidade.
Cada caso deve ser avaliado individualmente, considerando a doença de base, os objetivos do tratamento e as características do paciente. Se você ou um familiar recebeu indicação de estomia, buscar orientação especializada pode ajudar a esclarecer dúvidas e compreender melhor as opções disponíveis para o seu caso.


Se você precisar de uma consulta, eu sou o
Dr. Alexandre Bertoncini, coloproctologista e cirurgião do aparelho digestivo com toda minha formação e doutorado pela Faculdade de Medicina da USP, além de ser membro titular do Colégio Brasileiro de Cirurgia Digestiva e associado à Sociedade Brasileira de Coloproctologia.


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Artigo escrito por

Dr. Alexandre Bertoncini

Cirurgia do Aparelho Digestivo e Coloproctologia


O Dr. Alexandre Bertoncini é cirurgião do aparelho digestivo e coloproctologista formado pela Faculdade de Medicina da USP, membro titular do Colégio Brasileiro de Cirurgia Digestiva e associado à Sociedade Brasileira de Coloproctologia. Possui Doutorado pela Faculdade de Medicina da USP e é pesquisador com foco em oncologia e endometriose intestinal. 

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